segunda-feira, setembro 01, 2014

Milneirão

Não, leitor, não é um erro de digitação no título. É um amálgama entre o número "mil" e o apelido do maior estádio de Minas, o "Mineirão". A razão? O Cruzeiro chegou à milésima vitória no estádio, na sua casa, nos seus domínios. Ok, ok: o estádio é do Governo de Minas, é administrado pela Minas Arena, e não é patrimônio/propriedade de nenhum clube de futebol. Mas e daí? Em um país onde os clubes estão cada vez mais endividados, devendo ao fisco e à Previdência, faz alguma diferença se é patrimônio ou não é? Eu creio que não. Aliás, acho até melhor que não seja!

O Mineirão foi inaugurado em 1965, com um jogo da Seleção Mineira contra o River Plate... adivinha quem narrou o jogo? O nosso querido Alberto Rodrigues, O Mais Vibrante, narrador do Cruzeiro desde os idos de... putz, nem sei. Desde sempre, para sempre!

Na mesma década de 1960, o Cruzeiro conquistou as primeiras 100 vitórias... isso mesmo, já em 1968, o time vencera no Gigante da Pampulha mais de 100 vezes! Estatísticas como essas só foram alcançadas por times como o Santos de Pelé, O Real Madrid e outros desse nível, em suas melhores fases. E já havia, também, o primeiro título nacional conquistado em Minas Gerais: a Taça Brasil de 1966, com um jogo de estonteantes 6 a 2 sobre o Santos... mas tem gente que pode falar disso bem melhor que eu: 


Mas a vida anda, o tempo passa, e logo vieram 200 (1973), 300 (1977), 400 (1982) e 500 vitórias (1987). Vinte e dois anos, 500 vitórias: são quase 23 vitórias por ano. Se já é admirável, a próxima sequência de vitórias seria impressionante: em 300 vitórias (1987-2003) o Cruzeiro papou 1 libertadores, 4 Copas do Brasil, 1 Campeonato Brasileiro, 2 Supercopas, 1 Recopa, 2 Copas Sul-Minas, 1 Copa Centro-Oeste, 1 Copa Ouro, 1 Copa Master e 8 estaduais. Em 16 anos, 22 títulos. Se considerada a série ao menos um título por ano (1990-2004), temos impressionantes 15 anos levantando pelo menos um caneco por ano. No Brasil, é um feito sem igual. No mundo, você encontra equivalências no ilustre Real Madrid, e em mais dois ou três dos quais não me recordo agora. Em 2003, em especial, o Cruzeiro levou três títulos nacionais: o estadual, o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil, feito inédito no nosso país:


Foram muitos jogadores talentosos reunidos em um time, que deixou marcas ainda perenes no Campeonato Brasileiro de pontos corridos: alcançou 100 pontos de 138 possíveis (72,46% de aproveitamento), 31 vitórias de 46 possíveis (67,39%) e marcou 102 gols em 46 jogos (2,22 por jogo). E jogava bonito, com toque de bola associado a talentos individuais. Dava gosto de se ver!

De 2003 para 2013, o Cruzeiro passou por períodos de muita instabilidade, de muitos problemas e correu até mesmo o risco de rebaixamento. Isso provocou uma reestruturação no clube, que deixou o ano de 2011 como uma lição necessária, um remédio amargo a se tomar para que se melhore. Terminou a competição em 16º lugar, à beira do precipício.

De 2003 a 2014, o Cruzeiro conquistou 200 vitórias no Mineirão, as últimas para que chegasse a um total de 1000 êxitos. São 200 vitórias em 10 anos, o que dá uma média de aproximadamente 20 vitórias por ano. As mais importantes, certamente, foram as que levaram o time ao título de Campeão Brasileiro de 2013. Agora, a partir do dia 27 de agosto de 2014, o Cruzeirense reconhece no Mineirão o Estádio dos Mil Êxitos, o Milheiro do Mineiro, o nosso Milneirão.

Paz, saúde, amor e toda a felicidade do mundo a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, contribuíram para o crescimento do futebol mineiro nesses 50 anos de Mineirão, seja do lado do Cruzeiro, seja do lado de qualquer outro clube de Minas. E, particularmente, muito obrigado a todos e todas que deram o melhor de si para transformar o Cruzeiro em um time de marcas e conquistas incontestáveis ao longo de tantos e tantos anos. Dizem que somos loucos da cabeça...

E.

domingo, agosto 24, 2014

OLD SCHOOL RPG: Railroading e Sandbox (ou, Viseira Versus Vastidão)

Resolvi voltar a escrever nesse blog porque, aparentemente, ele ainda é muito visitado! Não sei bem o motivo, mas é. Então, em homenagem aos RPGistas que não arredam o pé, retorno ao blog para falar um pouco mais sobre RPG. E, como a minha temática favorita é o OLD SCHOOL, centralizo o texto em seus domínios.

Para quem já joga, não é necessário dizer o que é Railroading (Viseira) e o que é Sandbox (Vastidão). Para você que não joga, que é novato ou que não entende bem esses conceitos, tentarei explicar e comentar um pouco a respeito de cada um deles.

O RPG, sendo um jogo de interpretação de personagens, envolve o desenvolvimento de uma história, de uma sequência de eventos ao longo das sessões de jogo. Os personagens ganham níveis, realizam feitos, acumulam tesouros, etc. Isso tudo acontece com um pano de fundo, chamado cenário de jogo ou cenário de campanhas, e um roteiro, que são as aventuras em si. Tudo aquilo que acontece ou já aconteceu aos personagens, aconteceu em uma aventura, então a maneira como elas são conduzidas/imaginadas/planejadas é crucial para todo o desenvolvimento do jogo de RPG em si.

Aventuras, para quem não sabe, são trabalhosas para o mestre. Você achou difícil quando seu personagem teve de derrotar aquele ogro ainda no segundo nível? Pois saiba que difícil mesmo foi para o mestre, que teve de planejar exatamente em que contexto aquela criatura estaria ali, quais as repercussões de sua presença, que tesouro possuía e como seria a curva de crescimento de poder do grupo de personagens antes e depois de combater aquele ogro, apenas para falar dos elementos mais imediatos. Não é fácil.

Por tantos e tantos fatores, cada mestre segue um estilo particular de narrativa, aquele que o deixa mais confortável para tomar as decisões. Não existe um modelo pronto e acabado para se seguir: cada um narra da maneira que o deixa mais à vontade para tomar as decisões, o que dinamiza a criação das aventuras em si e coloca tudo em um ritmo de jogo mais cadenciado para o grupo.

Falemos, então, da Viseira e da Vastidão.

A Viseira, ou o Railroading

A aventura do tipo Viseira é aquela onde todas as sequências de ações são pré determinadas pelo mestre, antes mesmo de os jogadores criarem seus personagens. Pense em uma aventura pronta, daquelas que se compra por aí. O autor não tem o menor controle sobre quais personagens formarão o grupo de jogo, não sabe se o mestre será um veterano ou um iniciante, não sabe qual cenário de campanha será utilizado como pano de fundo, etc. Ou seja, ele tem de tomar todas as decisões, e então conceber o material dentro de uma lógica própria. E não adianta muito ele se debater sobre isso, porque as mais diferentes pessoas adquirirão aquela aventura para os mais diferentes propósitos. Iniciantes podem querer um primeiro contato através dela, enquanto veteranos podem querer apenas algo para adaptar ao seu próprio cenário de jogo. Como não há como (e nem porquê) agradar a todos, a melhor decisão é tomar todas as decisões, amarrar todas as pontas e entregar algo com começo meio e fim.

Em síntese, a Viseira deu ao produto final o norte do qual precisava, e se propôs a concretizar um roteiro, com desafios e prêmios previstos.

Em AD&D, muitas aventuras ficaram famosas não apenas pelo modelo Viseira, mas porque esse modelo, associado ao estilo "save or die", gerou situações delicadíssimas. Existem aventuras nas quais as masmorras tinham 3 entradas, sendo duas delas armadilhas mortais. Isso mesmo: seu personagem morria antes de entrar na masmorra! Existiam ainda descrições do tipo "caso alguém mova o castiçal próximo à escada, será aberto um compartimento secreto no terceiro degrau", ou seja, nada de se usar apenas a mecânica de encontrar portas secretas: o jogador tinha de falar PRECISAMENTE que seu personagem fizera algo, para então obter o resultado. Existe toda uma infinidade de enigmas que demandavam palavras específicas, PdM's que detinham informações cruciais e só as revelavam quando ESPECIFICAMENTE perguntados sobre, monstros em tabelas de encontros aleatórios que detinham tesouros cruciais para o sucesso dos grupos, etc. A viseira, nesse caso, delimitava em pontos muito mais que específicos a experiência de jogo.

Não por acaso, muitos mestres de RPG iniciados no AD&D utilizam esse modelo de jogo, pois foram treinados apenas nele enquanto jogavam aventuras prontas. Eles então concebem suas campanhas como viseiras, como aventuras nas quais os personagens tem sim de responder a cada desafio da maneira exata como ele imaginou, para então obter o sucesso. Não existe, em si, um demérito nisso, mas há o risco de os personagens não conseguirem os objetivos e afundarem com todo o planejamento da campanha, o que na verdade é um enorme prejuízo para o mestre!

O estilo viseira de jogo é muito comum aos grupos em eventos, onde não há espaço para se desenvolver a história de cada personagem quando o jogador chega. Tudo tem de ser agilizado, tem de ser rápido e ao mesmo tempo seguro. Isso tudo só é conseguido com muito planejamento prévio, com o estabelecimento dos desafios e recompensas, etc. Se, por um lado, esse modelo dá ao mestre controle total sobre tudo, sobre os rumos e destinos da campanha e, de certa forma, sobre a garantia de que o jogo será divertido para todos, por outro lado ele coloca um calhamaço de planejamento e de análise prévia e de trabalho nas mãos do mestre, que literalmente tem de decidir TODAS as possíveis linhas de crescimento da campanha antes das sessões de jogo.

A Vastidão, ou o Sandbox

Da mesma forma que existem as pessoas que, ao viajar para o exterior, seguem fielmente um guia escrito e planejado, há aqueles que, ao chegar em uma terra estranha, pegam o primeiro ônibus e partem para o desconhecido, esperando pelo melhor. Eles se sentam à janela, ou ficam em pé, puxam assunto e tentam ao máximo se divertir. Este é o estilo de jogo da vastidão: você não se prepara para quase nada, exceto para se divertir. Você chega à sessão de jogo, os jogadores fazem seus personagens (digamos, um grupo de 4 ladinos), fazem os históricos de seus personagens e então... quando você vê, se passaram 4 horas e todo o mundo tem de ir embora. Daí, na próxima sessão de jogo, vocês se encontram novamente e, surpresa, chega um jogador novo! Ele então decide participar, faz outro personagem (mais um ladino), com histórico e tal. Todo o mundo conversa, todo o mundo se entende e se apresenta, e as pessoas começam a conversar sobre que tipo de aventura querem jogar. Quando todo o mundo decide o estilo, a campanha, o nível inicial e outros pormenores, lá se foi mais um dia. No terceiro ou no quarto dia de jogo, se ninguém mais aparecer e se ninguém desistir, deve rolar a primeira sessão de jogo. Óbvio que ela não seguirá um roteiro todo escrito, pois nem mesmo o grupo esperava jogar naquele dia, o mestre não se preparou e alguns jogadores podem ter algumas dúvidas sobre regras e personagens. Quando esse grupo eventualmente começar a jogar, algumas interrupções ocorrerão: qual o cenário de campanha? Quais as divindades? Qual é o poder central, quem governa? Qual é a história das famílias mais antigas da cidade? Se o mestre utiliza um cenário pronto, essas perguntas são todas facilmente respondidas... mas e se ele utiliza cenário próprio? Pense um pouco na maneira como esse parágrafo vem sendo escrito: ele não te parece grande demais? Será que ele não poderia ser subdividido, ter alguns trechos removidos e outros desenvolvidos? Provavelmente sim, mas em um jogo do tipo vastidão, nada está muito definido, e as coisas partem muito mais do improviso e da espontaneidade que do planejamento e do método.

Esse estilo de jogo tem lugar de destaque porque o RPG é, eminentemente, um jogo do improviso. Por mais que se possa querer e prever as ações dos personagens, elas tem de ser decididas no calor do momento, na hora, no improviso. Quantas vezes os grupos de jogadores traçaram estratégias para uma batalha e, logo na primeira rodada de combate, tiveram de jogar tudo às favas e improvisar de imediato?

O jogo de RPG é um jogo que demanda desenvoltura e raciocínio rápido, especialmente por parte do mestre. Se ele conseguir levar uma campanha primordialmente no improviso, alimentando as aventuras futuras a partir do que acontece dentro das próprias aventuras, o divertimento do grupo de jogo tende a ser muito maior: você lidará diretamente com as consequências criadas pelos seus personagens, e não com o que está escrito no bloco lateral da página 35 da aventura. O preço? Bom... boa parte das vezes, as coisas não andarão ao seu favor, enquanto jogador. Para o mestre, existe ainda um ponto delicadíssimo: por mais que seu estilo seja de improviso e de criatividade, se o grupo de jogo perceber que não há de fato uma aventura previamente escrita e planejada, há o grande risco de todo o mundo perder o interesse, para não dizer o respeito. Um mestre que não planeja tudo (ou quase tudo), na visão de muitos, não deveria sequer estar mestrando.

O contrato que se estabelece entre jogadores e mestre é muito claro: um propõe os desafios, e os outros tentam resolvê-los. Se os desafios não são previamente criados pelo mestre, toda a sorte de suspeição recai sobre esse contrato. Está o mestre perseguindo alguém? Está o jogo tão equilibrado quanto deveria? Será que um pouco mais de planejamento seria tão ruim assim? As pessoas podem sim se sentir que é inseguro. Do lado do mestre, novamente, a coisa é muito mais delicada: por menos planejamento que se faça, todos nós temos expectativas e metas. Ao longo do desenvolvimento das aventuras, os mestres também se envolvem, também imaginam desfechos e ambicionam o crescimento de algum personagem, de alguma região, de uma cidade, etc... e se, no meio de tudo, os personagens destroem isso? Saberá o mestre lidar  com a perda, e tocar a campanha para adiante? Desplanejar e desapegar... será isso assim tão fácil?

Mestrando e Jogando

No fim das contas, como eu disse no começo, não é sobre a maneira correta ou incorreta de se jogar, e sim sobre se divertir. Não busque o seu próprio sofrimento, não crie uma aventura que pesará sobre seus ombros e não jogue em uma campanha onde seu personagem não tem tanta liberdade/segurança quanto você gostaria. Procure meios termos. Dialogue. Faz parte do jogo discordar, rever as possibilidades e criar aquilo que melhor se encaixa nos planos de um e no improviso de outro.

Só não deixe de se divertir.

E.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Resultados do Futebol de Resultados

Hoje, dia 27 de dezembro de 2013, o Campeonato Brasileiro ainda não acabou. Já sabemos quem foi o campeão - deeeeesde outubro, convenhamos - e também quem serão os outros 5 brasileiros na Libertadores'14. Também temos uma boa ideia sobre quem estará na Série A... e há, é claro, a situação da Portuguesa de Desportos. Não entrarei em detalhes sobre o assunto, mas o fato é que, apesar de não haver mais jogos a se disputar, ainda não temos os 4 rebaixados para 2014. É, sim, já sabemos quem serão os 4 que subirão, mas e os que cairão? Sem chances. Só o STJD decidirá o resultado disso. O resultado emergirá do tribunal, o mesmo tribunal que disse, em 2010, que o Fluminense era o Campeão, com jogador irregular e tudo, e que o resultado construído em campo não poderia ser revertido fora dele. Passaram-se 3 anos e o mesmo Fluminense, aparentemente, terá o resultado construído em campo revertido em seu benefício, evitando o rebaixamento. O resultado disso é que, mais uma vez, mostra-se que há sim vários pesos para a mesmíssima medida no nosso futebol.

Mas eu não quero falar da manchinha preta no terno branco.

Eu quero, primeiramente, agradecer pelo ano de 2013, que foi o melhor ano da minha vida. Tanto mais por ter visto o meu querido Cruzeiro campeão brasileiro - conquistando o sétimo título nacional - e por ver o Atlético-MG campeão da Libertadores. Não, não me dói reconhecer méritos do adversário, simplesmente porque a rivalidade entre Raposa e Galo é estritamente estadual: Cruzeiro e Atlético-MG nunca decidiram nada no Mundial, por razões óbvias. Também nunca se enfrentaram pela Libertadores da América, em todos esses 50 e tantos anos de competição. Na Copa do Brasil, mesmo o Cruzeiro possuindo 4 títulos e o Atlético-MG tendo participado de todas as edições - exceto a de 2013 - eles também nunca se viram. No Brasileirão há apenas 1 jogo que valeu alguma coisa em todas essas décadas: aquele que o Cruzeiro ganhou por 6 a 1 do Atlético-MG e evitou o rebaixamento. E é só. Nem pela Sul-Minas, nem pela Copa Centro-Oeste, nem na época de Supercopa e Conmebol, nem na Recopa... Cruzeiro e Atlético-MG só se dobram no estadual. E, como na minha opinião a rivalidade é exercida fundamentalmente DENTRO DE CAMPO, não há razão para dizer nada a respeito do que o Atlético-MG faça além do âmbito regional... até porque, sejamos francos, ele nunca faz muita coisa, de bom ou de ruim. E a Libertadores de 2013 é a exceção que comprova a regra.

Porém, é normal que se estranhe um cruzeirense dizer que "ficou feliz" com o resultado positivo do rival estadual. Em princípio, é realmente um pouco estranho. Mas quando digo isso estou dizendo com olhos no futuro: o resultado deles em 2013 implica em um possível - e inédito - embate entre Cruzeiro e Atlético-MG na Libertadores em 2014. Não é certeza, não está garantido, mas pode ser que ocorra! E, a partir daí, após tantas décadas, Cruzeiro e Atlético-MG serão rivais em algo mais que o estadual, o que seria um ótimo desdobramento para o futebol mineiro, qualquer que seja o resultado do eventual confronto. Ganham todos, com uma rivalidade levada a um aspecto internacional, ou quem sabe nacional... caso os dois times voltem a brigar pelas primeiras posições em 2014 também no Brasileirão.

Esse distanciamento, essa posição (quase) neutra diante do resultado deles não é algo fácil de se manter. Primeiramente, porque tenho dois irmãos, ambos atleticanos, com (contra?) quem sempre discuto sobre futebol, o que nunca termina bem. Meus pais, que já cresceram o suficiente para perceber a tolice que é discutir como discutimos, ainda nos chamam a atenção, dizendo para "pararmos com esse fanatismo". Creio que em muitos outros lares seja assim. Não creio ser um fanático, mas o resultado é que monopolizamos a ceia de Natal, a mesa do churrasco, a frente da geladeira, o intervalo comercial do filme, sempre aos berros, sem realmente ouvir o que o outro está dizendo. Vergonhoso. Ainda mais para mim, já que eles são dois... provavelmente eu grito o dobro. Mas, de resto, tento sim entender que o futebol de paixões já acabou faz tempo... hoje, temos apenas o futebol de resultados. Resultados financeiros, para que fique bem claro. Nunca me esquecerei da charge sobre a final da Libertadores 2009, quando o Cruzeiro perdeu para o Estudiantes... perante uma renda de R$2.000.000,00 (não, não importa mais o público). A charge, então, mostrava um repórter fazendo uma pergunta ao então Presidente do Cruzeiro, e este, de costas ao repórter, abraçado a um saco de dinheiro do tamanho de um mamute, todo cheio de amores. E feliz.

Então, hoje, quando vejo um time como o Cruzeiro ganhar o Brasileirão jogando o bom futebol, ao passo em que o Fluminense se escora em resultados financeiros e favorecimentos variados para permanecer na Série A, eu vejo que as rivalidades são bem outras. Não me importo mesmo com o que o Atlético-MG ganhe ou deixe de ganhar, perca ou deixe de perder. A exceção, óbvia, é quando essas derrotas ou conquistas afetarem o meu time do coração, o que nunca aconteceu fora do Campeonato Mineiro, afora 3 ou 4 exceções, ou quando as coisas começarem a se decidir FORA DO CAMPO.

Também não me apego, não crio vínculo afetivo (de amor ou de ódio, ou do que quer que seja) com esse ou aquele jogador, treinador, presidente de clube ou torcida organizada, porque essas pessoas, todas elas, não estão atrás de resultados esportivos, e sim de resultados financeiros. Exceções existem, e portanto são tratadas como tal. Como não virar fã de jogadores como Sorín e Fábio, só para citar dois, que criaram um vínculo mais que profissional com o Cruzeiro, a ponto de serem admirados até pelos rivais? Como esbravejar contra o Cuca ou quem quer que seja, por ter ido embora pelo dinheiro que foi? São, todos os três, pessoas que vieram, viram e venceram. Entregaram o resultado mais que esperado, e que merecem o respeito de todos. Profissionais do futebol de resultados, que é o único futebol em que eles puderam trabalhar.

E,

segunda-feira, novembro 11, 2013

... Campeão?

O Cruzeiro venceu o Grêmio ontem, pela trigésima terceira rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. Com isso, chegou a 71 pontos, que costuma ser o número mágico para quem quer ser o campeão do torneio. O segundo colocado, o Atlético-PR, tem... 58 pontos, nos mesmos 33 jogos disputados. São 13 pontos de diferença, a 5 rodadas do fim. O resultado dessa vantagem é que o Cruzeiro nem precisa mais jogar: para se sagrar o campeão, só precisa que o Atlético-PR deixe de ganhar uma única vez, pois nesse caso o time do Paraná só chegaria a 71 pontos. Nem vou comentar sobre o abismo que separa os dois times no quesito saldo de gols e no número de gols pró. No número de vitórias, o Cruzeiro nem pode mais ser alcançado (22 a 16, a 5 rodadas do fim).

Então, o Cruzeiro já é o campeão?

Prefiro não responder agora, porque há muito mais o que se dizer sobre esse campeonato brasileiro de 2013. No último texto, falei sobre as disparidades, os absurdos e o avesso que é esse campeonato brasileiro de 2013. Hoje, gostaria de chamar a atenção para algumas outras coisas.

A primeira coisa que quero destacar é o fato de o Cruzeiro ter vencido todos os outros participantes do torneio, o que é inédito na história da competição. Pensem bem se é fácil vencer 19 adversários, e vocês todos perceberão a grandeza do feito. Para mim, já vale algum tipo de troféu, de exemplo, de placa e de homenagem.

A segunda coisa é a maneira como o time jogou a competição. O futebol apresentado pelo Cruzeiro é um bom resgate de algo há muito perdido nesse país: o direito de se jogar bonito, com toque de bola, sem correria e chutão, e ainda aspirar ao título. O Grêmio entrou com três zagueiros e três volantes ontem, o jogo foi truncado, e no final: 3 a 0 para o Cruzeiro. Jogou mal o Grêmio? Não, não jogou, mas não veio aqui para ganhar a partida. O Cruzeiro, em todos (?) os jogos do Campeonato, jogou para ganhar. E, noves fora aquelas feiosidades que todo o mundo faz hoje em dia (como aquela esparrela de se prender a bola na cobrança de escanteio, a minutos do fim da partida), obteve seus pontos jogando o seu futebol, com a sua tradição e da maneira que sempre fez em todos os títulos do passado: toque de bola, dribles objetivos e finalizações das mais precisas.

Terceira coisa: muita gente ainda pensa que a grandeza de um clube é medida por seus títulos, por sua galeria de troféus e medalhas. Eu não penso assim. A grandeza de um time está em sua matriz, seu estilo de jogo, suas tradições e seus craques históricos. De 1990 para cá, o Cruzeiro venceu muitas competições, mas não foram os troféus que ficaram: foram as tradições do clube, foi o reconhecimento nacional e internacional de que existe "um certo" time azul-celeste em uma cidade do interior do Brasil que joga com seu estilo próprio. Que entra na Libertadores, e é respeitado. Que vai em excursão, e mostra sua identidade. Que joga aqui, joga ali, seja um amistoso, seja um especial para encerramento de carreira de jogador, e sempre traz consigo a marca do toque de bola, da velocidade, da habilidade e dos atacantes astutos, astutos como a Raposa que lhe serve de mascote.

Em 1976, Joãozinho foi mais astuto que todos. Em algum lugar, Deus gargalhou, e o Diabo sentiu uma pontinha de inveja.

Em 1994, Ronaldinho foi mais astuto que Rodolfo Rodrigues.

Em 1996, Marcelo Ramos foi mais astuto que o goleiro, os zagueiros, o narrador, o comentarista...

Em 2000, Geovanni, auxiliado por Miller, foi muito astuto. Rogério Ceni se recorda.

No mesmo 2000, o goleiro André foi mais astuto que seus colegas de time, e que boa parte da torcida.

Em 2003, sobrou astúcia, para todos.

E, em 2013, astuto foi Marcelo Oliveira, que sempre conheceu e reconheceu a grandeza de um adversário histórico, e soube respeitá-la, não inventar, e dar à torcida e à competição um Cruzeiro xerocado dos idos de 2000, de 1990, de 1980...

O futebol brasileiro (o BOM futebol brasileiro) tomou um duro golpe em 1982, quando jogou tão bem e se saiu tão mal naquela Copa do Mundo. Para piorar, em 1994, um time de brucutus sagrou-se campeão mundial. Nós aqui, desde então, começamos a ver uma produção em série de "um certo tipo de jogador", um cara que fica ali, perambulando pelo meio de campo, sem muito propósito nem muita lucidez, apenas esperando a hora de matar (sim, MATAR) um lance do adversário. Desde então, todo o mundo tem 2 ou 3 desses caras em campo, e é esse genocídio no nosso futebol... e aí, quem se atreve a criar algo em um ambiente desses? Alguns se atrevem... atualmente, há "um tal" de Ronaldinho Gaúcho, mais uns e outros, que trazem consigo mais que a vontade de ganhar rios de dinheiro, que fazem as jogadas parecerem fáceis... talvez eles não se deem conta, mas o fato é que eles inspiram, eles fazem com que os próprios adversários queiram ver mais... queiram ser mais... queiram jogar mais. Em 2003, eu vi uns e outros adversários parados em campo, vendo o Alex jogar pelo Cruzeiro. Não raro, ainda vejo o mesmo atualmente, quando o Ronaldinho Gaúcho põe o pé na bola. É sempre rápido, sempre apenas um lampejo, mas aquela admiração está ali, está sempre ali, não pela figura do craque em si, mas sim do bom futebol prestes a se manifestar. Para que fique fácil de se observar, veja o comportamento desses jogadores, que formam uma barreira, durante a cobrança de falta de "um certo" Zico, láááá em 1987...


... se você reparar bem, apenas um deles salta durante a cobrança, e todos os outros (cinco?) viram-se para acompanhar a trajetória da bola. Eles não querem saber que é semifinal de campeonato, se é jogada do adversário ou o quê. Eles querem ver o bom futebol, e eles estão no melhor assento possível: dentro do campo. Quando a bola que eles acompanham, hipnotizados, finalmente entra, alguns põem as mãos na cintura, em um gesto que parece dizer "como é que ele consegue?", ou "putz, o goleiro nem teve chance". Esse mesmo gesto, esse mesmo grupinho decepcionado, também é visto em um gol de Éverton Ribeiro, contra o Santos, que ficou 1 a 0 para o Cruzeiro. Repare ao final do vídeo, os 4 defensores, cabisbaixos, de mãos na cintura, sem nem ter muito para onde olhar:


É esse o mais importante feito do Cruzeiro em 2013, o de ser um time que joga o futebol que todos deveriam jogar: um futebol agudo, objetivo, lúcido e direcionado para a construção das próprias vitórias, e não para a destruição das jogadas do adversário. O São Paulo foi tricampeão brasileiro, o primeiro autêntico tricampeão brasileiro, há menos de 5 anos... e ninguém se lembra daquele time, justamente porque era um time de brucutus, de retranca, de gente interessada em matar (MATAR) as jogadas adversárias, de ganhar sempre de 1 a 0, sempre abusando do anti-jogo, das faltas, enfim, fugindo do bom futebol. Entrou para a história, mas não inspira em nada. Agora, o Cruzeiro ou o Santos de 2003... o São Paulo ou o Palmeiras de 1993... o Flamengo ou o Atlético-MG de 1980... o Inter ou o Cruzeiro de 1975... o Santos ou o Botafogo de 1961... tantos outros, com ou sem títulos, foram times que inspiraram, e ainda inspiram, as melhores escolas de futebol do país. E que deram identidade às suas equipes, além de craques, hinos e padrões de excelência das diferentes escolas de futebol do Brasil.

Do país do melhor bom futebol que existe.

E.

sábado, novembro 02, 2013

Tão Perto do Título, Tão Distante da Realidade

Nessa semana que se iniciará amanhã, o Cruzeiro viverá a expectativa da conquista do título de Campeão Brasileiro de 2013. Dez anos depois, um time fora do eixo Rio-SP poderá ganhar o campeonato nacional... como fez o próprio Cruzeiro, em 2003.

No ano de 2003, o Cruzeiro ganhou tudo o que disputou: Brasileiro, Copa do Brasil e Campeonato Mineiro. Como foi a primeira vez que isso aconteceu aqui no Brasil, deu-se o nome de Tríplice Coroa ao feito, um nome que já era utilizado no futebol europeu para um time que tivesse desempenho similar (eles não tem campeonatos estaduais, como nós aqui temos, então os títulos de lá são o Campeonato Nacional e os dois torneios continentais, Copa da UEFA e Copa dos Campeões da Europa). Desde então, ninguém mais conseguiu repetir o feito do Cruzeiro, apesar de alguns times daqui terem ganho 3 títulos no mesmo ano (se não me engano, o Internacional o fez em 2006, por exemplo).

Em 2013, se ganhar o Campeonato Brasileiro, o Cruzeiro superará todas as expectativas com relação ao seu desempenho para a temporada, inclusive as suas próprias. Foi um time montado muito às pressas, com um treinador de ótimo nível, mas sem muito tempo para entrosar a equipe. Além do curtíssimo tempo para se preparar para a competição, o Cruzeiro tinha contra si mesmo o recente período de "crise", onde o time não ganhou nada (novamente, desde 2003) e vinha perdendo espaço para o Atlético-MG. Para piorar ainda, os rivais ganharam a Taça Libertadores em 2013, maior conquista da história do clube alvinegro. Não, não parecia um bom ano para nós, cruzeirenses, ou para o nosso time.

Porém, alguns fatores decisivos entraram em campo em 2013.

O maior e mais evidente fator, na minha opinião, foi a queda de qualidade de todo o futebol jogado na América do Sul. Não, o Cruzeiro não disputou a Libertadores em 2013, assim como não o fizeram vários times tradicionalíssimos na competição. O São Paulo, tão grandioso em Libertadores, foi um coadjuvante limitado. O Fluminense, Campeão Brasileiro de 2012, foi menos ainda - e segue na rabeira do campeonato nacional desse ano. O Corinthians, campeão da Libertadores do ano passado, parece que nem participou! O torneio foi fraco, mais fraco que a média. Ainda assim, coroou um campeão tão digno quanto qualquer outro campeão, um time que jogou com muita raça, muito toque de bola, muito apoio da torcida e que também contou com muita sorte. E todo campeão de Libertadores tem que ter sorte, vide 1997:



... vide 2004:


... ou vide 2002:


Em termos de nível técnico, o mesmo fiasco presenciado na Libertadores pode ser presenciado no Brasileirão desse ano. Palmeiras, rebaixado no ano passado e atualmente disputando a Segundona, é o melhor destaque do futebol paulista... do carioca, fala-se menos ainda. Nenhum dos dois produziu nada digno de nota, exceto um Botafogo sem muita vocação para o título, ou mesmo para o vice-campeonato. Se o Cruzeiro ganhar o título, terá vencido um campeonato também fraco, mais fraco que a média, ainda que de maneira digna e com todos os méritos, tanto quanto qualquer outro campeão etc etc etc.

Mas, como explicar? Como pode um campeonato nacional, onde estão os atuais campeões do mundo, da libertadores e da mercosul, não ser admirável? É difícil de se entender - não que eu não esteja achando o máximo! - um Brasileirão de 20 clubes, onde 6 das últimas 10 posições pertencem a clubes do eixo Rio-SP, onde não há paulista no G4 e com o atual campeão na porta da zona da degola. É como se, de repente, os times do Paraná, da Bahia, de Santa Catarina e Goiás acordassem para a competição, para as vitórias, mas sem o brilho de um futebol bem jogado. Vale mais raça e vontade que consistência e qualidade.

O Cruzeiro destacou-se, sim, por um bom futebol nesse longo campeonato... porém, praticamente não teve adversário nesse quesito, perdeu o estadual (não teve ressaca de título) e foi logo eliminado da Copa do Brasil (não teve que dividir o foco), então lutou pelo que restou, e vem acertando. O próprio Atlético-MG, se tivesse curtido menos a sua ressaca pós-Libertadores, seria também um candidato ao título tão digno quanto, e aí sim ficaria IMPOSSÍVEL aguentar os atleticanos... para o "azar" deles, todo o mundo ficou muito feliz com a conquista da Libertadores, deixando o Brasileirão de lado.

Mas e todos os outros? Como explicar?

Não creio realmente que haja uma explicação para tanto desprezo, despreparo e desinteresse com relação ao Brasileirão... é como se a realidade fosse outra, como se a Copa do Mundo já estivesse acontecendo dentro de muitos dos clubes, como se os interesses fossem já beeem distantes não apenas desse campeonato, mas também de todo o calendário do futebol de 2013.

Tanto melhor para o Atlético-MG e para o Cruzeiro que, atentos às suas respectivas realidades, tão distantes da norma de cada um, souberam aproveitar-se da distração dos outros e marcar lugares muito dignos. Para ambos. Com ou sem título.

E.